segunda-feira, novembro 07, 2005

Pela escuridão das cores da vida!


Vinte e sete de Outubro de dois mil e cinco, são oito da manhã e saio para o emprego. O dia está cinzento, mas o Sol tentar aparecer através de uns escassos raios que atravessam suavemente as nuvens. Ao virar a esquina, vejo que a Natureza nos privilegiou com aquela visão magnífica que é o Arco-Íris.

Para muitos, um Arco-Íris não passa de um arco colorido que surge no céu quando o tempo está de “sol e chuva”, e, que supostamente, esconde um tesouro numa das suas pontas como narra a história infantil. Cientificamente, um arco-íris é um fenómeno óptico ou meteorológico que causa (aproximadamente) um espectro contínuo da luz que aparece no céu quando o sol brilha sobre gotas de chuva. Ele é um arco multicolorido com o vermelho no seu exterior e o violeta em seu interior; a sequência completa é vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, índigo e violeta.

E para um invisual, o que será um Arco-Íris? De que cor será o seu mundo? Preto, branco, azul, amarelo,…? Será que nasceu assim ou sofreu alguma fatalidade?
Talvez nunca tenhamos parado para pensar nisso. Talvez porque estejamos demasiado ocupados com a nossa vida, de uma forma tão egoísta, que não temos espaço para estas pequenas grandes questões.
Sinceramente não sei, provavelmente até aquele momento também eu ainda não tinha parado para pensar nisso. Acontece, que cinco minutos após eu ter visto o Arco-Íris ajudei um invisual a atravessar a avenida. Nessa altura, todas essas questões começaram a surgir incessantemente na minha cabeça. O quanto eu gostaria de o questionar sobre tudo aquilo, sobre o seu mundo… Mas seria justo?! Não poderia eu de alguma forma ferir a sua susceptibilidade? O receio de o magoar tomou conta de mim, e mantive-me em silêncio enquanto o encaminhava para o outro lado.
No entanto, fiquei a pensar se ele saberia que estava um Arco-Íris no céu, se saberia o que era, se alguém já lho tinha descrito, se algum dia teria tido a oportunidade de ver um…E quem diz o Arco-Íris, diz o resto das “coisas”.

Por vezes, olhamos as “coisas” de uma forma fugaz, com uma certa indiferença até, e se calhar, estamos a perder a oportunidade de contemplar algo belo. Mas se parássemos para pensar que existem milhões de pessoas que nunca terão a oportunidade de ver, seja o que for, ou que já tiveram essa oportunidade mas que devido a uma fatalidade nunca mais a vão ter, se calhar nessa altura pararíamos a olhar mais atentamente para o que nos rodeia. Acredito, ou quero acreditar, que estas pessoas têm uma maneira muito peculiar de “ver” as coisas, e que são felizes no seu mundo tenha ele a cor que tiver.

Contemplem a vida, a Natureza, os objectos, as pessoas… contemplem e agradeçam o facto de poder ver e de ter uma vida com forma e cor.

3 comentários:

Miguel V. Carvalho disse...

Muito bonito o teu texto Bequitas.

Aconselho-te a dar uma vista de olhos no blog:

www.oqueosolhosnaoveem.blogspot.com

Lê alguns dos textos dos meses anteriores... Os textos são escritos por uma jovem mãe que tem um filho invisual mas consegue ser mais feliz que muitos de nós.

Esta pessoa é minha amiga e é um prazer enorme conhecê-la e aprender com ela.

O Chefe disse...

São estas coisas que nos fazem dar vivas pelo que temos. Nunca é pouco, é simplesmente mais do que alguns têm. Ajudaste uma pessoa com um gesto bonito, ou melhor, o teu reflexo em ajudá-la é do mais puro que pode haver. Fazer uma boa acção só para dizer que a fizeram é uma coisa sem sentido, agora fazê-la porque simplesmente não sabes bem porquê, isso já é algo mais profundo e bonito, algo que te vem de dentro. Obrigado Bequitas por partilhares esta experiência.

Bjocas ;)

Rui Damas disse...

Gostei muito do teu texto, é sensível, colorido e dá-nos uma profunda noção de humanidade.

Parabéns!