Nas proximidades do palácio dos Duques de Bragança, em Guimarães, ergue-se uma altiva e nobre estátua com a seguinte inscrição: "D.Afonso Henriques, 1º Rei de Portugal". Nada mais enganador e falacioso. Na realidade, o homem de elmo, escudo e espada, representado na escultura foi o primeiro Rei de Portugal, só que ao contrário do que sustenta a doutrina vigente, não se chamava D.Afonso Henriques, mas sim, D. Luíz Moniz.
Foi durante uma visita ao Mosteiro de Arouca, que ouvi pela primeira vez esta história, pela boca de um cicerone local. Tratava-se de mais uma daquelas figuras, presentes em todos os monumentos, que são incapazes de nos deixar contemplar em silêncio a beleza do sítio e que alimentados pelos sonho de um punhado de moedas de recompensa, se prestam a contar tudo e mais alguma coisa acerca do monumento e que tanto irritam os turistas... A sua prosápia acerca da argamassa do mosteiro era tão entediante que deixei de lhe prestar atenção, mas quando, subitamente, dos seus lábios, queimados pelo vento e pelo cigarro, saíram palavras que indicavam ser ali o local de nascimento do primeiro Rei de Portugal, o caso mudou de figura. Segundo ele o "fundador" chamava-se D.Luíz Moniz, filho de D.Egas Moniz (suposto Aio de D.Afonso Henriques). Ouvi com todo o cuidado a sua história, parecia-me coerente e com algum fundamento, mas era demasiado mirabolante para ser levada em conta. Nunca mais pensei no assunto.
No passado mês de Abril comprei a "História Misteriosade Portugal" de Victor Mendanha e " A Descoberta do Brasil" do eminente historiador Paulo Alexandre Loução e surpreendentemente, pude constatar, que eles assumiam como provável que o filho de Egas Moniz, teria sido o primeiro monarca luso, o que muda toda a perspectiva histórica sobre a fundação do Reino. Paulo Loução considera que " a sustentação científica desta versão é difícil, no entanto a descoberta de pergaminhos do séc.XI na Torre do Tombo, provindos do Mosteiro de Alcobaça, que corroboram os factos, são um forte alicerce".
Eis, então, os factos:
D. Teresa, enviou por sua vontade expressa o filho, D.Afonso Henriques, de apenas três anos de idade, para as terras de Arouca, para aí ser educado por D. Egas Moniz. Desde há centenas de anos que é ponto assente, para muitos habitantes daqueles antigos domínios de D. Egas Moniz, não passar o infante D. Afonso de" um enfezado deficiente físico" quando o entregaram aos cuidados do Aio, mais como o Conde D.Henrique, falecera, residia" na criança raquítica a única esperança da independência do Condado Portucalense e até da construção do futuro país".
Um dia levaram o menino a uma igreja dedicada à virgem de Carquere, com a finalidade de implorarem milagre capaz de o transformar em criança saudável, só que, durante a novena, o lume das velas propagou-se-lhe às roupas, o que lhe provocou queimaduras e mais tarde a morte.
Os reinos e os condados vizinhos desejavam anexar o Condado Portucalense e a única forma de não facilitarem tal desastre foi o de substituirem o cadáver do pequeno Afonso por um filho vivo de Egas Moniz, por sinal com a mesma idade, guardando o máximo sigilo quanto à troca, ficando o terrível segredo confinado a três ou quatro pesoas, incluindo D.teresa e a mulher de Egas Moniz.
Apesar de as únicas bases desta teoria serem a "vox populi" da região de Lamego e alguns pergaminhos recém descobertos, não faltarão, porém, indícios mais que suspeitos:
Desde essa altura precisa D.teresa investe o Aio no elevado cargo de "principe coliumbriense", denominação honorífica pertencente ao falecido esposo e, além deste pormenor de espantar, Egas Moniz passa a ser chamado na corte e em todo o condado, de "príncipe nosso", qualificação que segundo Victor Mendanha é "insólita por se tratar de título somente conferido a governantes soberanos".
Também a partir de 1115, o" principe nosso" assume um papel cada vez mais preponderante nos negócios do condado, sendo até a ele que o Papa se dirige, "conforme carta de Pascoal II", o papa vigente na altura dos factos.
Outro facto digno de registo, reside na romagem penitente de Egas Moniz, com toda a família e de corda ao pescoço, até junto do Rei de Leão e Castela, por ter empenhado a palavra em nome do soberano português e D. Afonso Henriques não a ter honrado, ao fugir à promessa de obdiência resultante da derrota na batalha de Arcos de Valdevez.
Podemos considerar igualmente estranha, a ligeireza com que Afonso Henriques afronta militarmente a presuntiva mãe, atitude muito mais própria de quem não tem o mesmo sangue, do que de um filho.
A História, mãe de povos e avó de revoluções, guarda em si a verdade sobre estes factos, mas pelo menos fica aqui registada a versão embaraçante.