Na semana que passou houve um aniversário que não vale a pena festejar.
Fez 90 anos um dos mais odiosos ditadores do século XX... porventura o pior do pós-guerra. O nome é conhecido e ainda hoje tem de causar náuseas e raiva a todos aqueles que se considerarem democratas: Augusto Pinochet.
Nasceu em Valparaíso, em 1915 e no ano de 1973 era comandante-chefe das forças armadas chilenas. No dia 11 de Setembro (uma data propícia aos acontecimentos trágicos) de 1973, Pinochet derrubou Salvador Allende, o fundador do partido socialista chileno, democraticamente eleito presidente em 1970.
Allende havia posto em prática um discutível plano de reforma agrária e nacionalizações. Discutível, mas claramente legitimado pela vontade popular expressa nas urnas. Pinochet, o Carniceiro de Santiago, contou com o apoio da direita chilena, mas também de Henry Kissinger e do Departamento de Estado norte-americano, para cometer um dos maiores atentados à democracia de que há memória, na América do Sul.
Allende foi derrubado e surgiu desde logo a versão de que teria cometido suicídio. Quem de perto lidou com ele, como o escritor Luis Sepúlveda, não acredita nesta versão. Salvador Allende, o presidente eleito do Chile, terá sido assassinado pelos gorilas de Pinochet. Tudo isto com o beneplácito da Administração Richard Nixon.
Seguiram-se anos de tortura, exílios, desaparecimentos e mortes. Os opositores do regime tinham duas escolhas: fugir ou morrer. A intelligentsia chilena teve de abraçar o exílio para não perecer à mãos cruéis da ditadura de Pinochet... tudo isto sempre com o apoio implícito ou, no mínimo, a indiferença de Washington, a alegada "capital mundial da defesa da democracia".
Pinochet foi nomeado presidente em 1974, ano de democracia em Portugal...ano negro para o estreito e longo país sul-americano.
Pinochet manteve-se no poder até 1990. As pressões para o regresso da democracia começavam a ser insuportáveis, mas o carniceiro assegurou o futuro. Conservou, até 1998, as funções de Comandante Supremo do Exército de Terra. Elegeu-se senador vitalicio e pretendeu apagar da
História do Chile o longo desfiar de terror que deixou no país. Pinochet e os seus algozes são responsáveis pela morte de mais de 4 mil chilenos, entre 1973 e 1989. Números reais, números que envergonham...até porque o velho ditador ainda não sofreu o castigo que merece...
Neste ponto, é preciso elogiar a coragem do juiz espanhol Baltazar Garzon. Foi ele quem acabou com a farsa e ordenou a prisão de Pinochet, à conta das vítimas espanholas da chacina.
O ditador foi encurralado em Londres e esteve quase dois anos preso. Garzon exigia a extradição para Espanha, onde um julgamento justo esperava Pinochet.
Por estes dias, era Eduardo Frei o presidente do Chile. E a vergonha regressou ao país, com lancinantes laivos de comprometimento com os anos de ditadura. O próprio governo chileno mostrou forte oposição à extradição e Pinochet regressou tranquilo e bem disposto a casa. Um regresso em que não contava com a coragem de alguns colegas chilenos de Garzon, contagiados pela mesma sede, não de vingança, mas de justiça. Só alegando demência é que os advogados do carniceiro conseguiram evitar o jugamento e a mais que provável condenação.
Condeno de igual forma qualquer tipo de ditadura. Abomino, na mesmo medida, Pol Pot e Suharto, Fidel Castro e Pinochet. Mas Pinochet é ainda pior que Castro, já que derrubou um regime democrático, com o apoio de outro regime democrático (EUA). Está aqui bem expressa a dualidade de critérios dos norte-americanos.
Os defensores do velho general salientam o salto económico dado pelo Chile nos anos da ditadura. Eu prefiro lembrar as atrocidades cometidas e o passo atrás dado em relação a toda a democracia sul-americana, por cotejo mal influenciada pelo exemplo chileno.
Pinochet fez 90 anos, continua vivo e sem castigo. E esta tem de ser ainda uma ferida aberta no coração e nas mentes dos democratas de todo o mundo, sejam de esquerda, do centro ou de direita. Porque, para o Carniceiro de Santiago, como para todos os ditadores, não pode haver nem perdão nem esquecimento.
Macau que se vai perdendo
Há 4 anos
3 comentários:
Pinochet representa o lobo humano no seu lado mais obscuro e macabro. Pinochet não foi o "príncipe" de maquiavel mas tentou fazer-se passar pelo super-homem de Nietzich. Foi um facínora.... um genocída!
Castrou os sonhos de uma geração que acreditava na américa do sul imaginada por símon bolívar e che guevara. Castrou os sonhos de todo um continente e aniquilou para sempre a fraternidade ameríndia.
Espero que Fidel Castro, Hugo Chaves, e Marcos de Chiapas, consigam por em marcha, uma união fraterna, justa, igualitária, sem dialectica neoliberal e sem fronteiras por toda a américa do sul!
HASTA LA VITORIA, SIEMPRE!
VIVA A REVOLUÇÃO AMERÍNDIA!
VIVAM AS OCUPAÇÕES! VIVA A REFORMA AGRÁRIA!
È verdade, o Pinochet gajo da pior espécie, e não seria mal atormentar a vida dele até ao fim...
Mas daí a dizer que Fidel Castro é um exemplo, é um passo de gigante!!!!
Primeiro, concordo em absoluto como texto do Manuel.
Segundo, a interpretação que fiz do Super Homem de Nietzsche, em "Assim Falava Zaratrusta", é completamente oposta à tua. Nietzsche exaltava à indiferença como sinal de superioridade moral.
Terceiro Damas, as tuas palavras finais descredibilizam quaisquer palavras ditas antes.
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