quarta-feira, novembro 09, 2005

A Infanta do Povo?!?

Sempre que as mediático-patéticas famílias reais europeias tomam conta de metade dos alinhamentos dos noticiários, sinto uma naúsea quase insuportável. É como que um vírus que me consome os neurónios, deixando em mim a dúvida em relação ao meu estado de saúde mental. Dou mesmo por mim a questionar-me: "terei simplesmente ensandecido??". Invariavelmente esta dúvida chega a um bom porto já que, felizmente, não sou o único a sentir as sevícias desta tentação das nossas televisões pelas pseudo-histórias de fadas da realeza europeia.
Depois do casamento de Carlos e Camilla (uma espécie de enlace entre Shrek e a ovelha negra da Família Adams), depois do matrimónio entre Filipe de Bourbon e Letizia Ortiz (uma sequela pouco conseguida da novela Rainier-Grace Kelly); depois de tudo isto, das horas de emissão, dos directos, das análises, dos debates que as três televisões portuguesas promoveram; depois de terem elevado estes acontecimentos sociais à categoria de assunto de relevante interesse nacional, temos agora o nascimento da Infanta de Espanha.
Soubemos que a criança nasceu prematura, soubemos o momento em que D. Letizia começou a ter contracções, soubemos tudo, o que quisemos e o que não quisemos saber. Eu, pessoalmente, não queria saber nada. Não queria, mas vi as três televisões e darem uma inusitada e exagerada atenção ao parto da esposa do herdeiro da coroa espanhola. Directos, reportagens, comentários e por vezes, honras de abertura dos telejornais.
Daí que me pergunte, terá D. Sebastião de novo desaparecido no nevoeiro? Teremos sobre as nossas cabeças o jugo dos Filipes? Seremos de novo uma província espanhola? Não??! Então alguém me explica tamanho frenesim provocado pelo nascimento da filha do Príncipe das Astúrias? Terá a Restuaração da Independência, em 1640, sido um lamentável erro estratégico?
Fique bem claro que nada tenho contra Espanha... Gosto do país, da cultura, das gentes. Sofri, como todos sofremos, ao ver as imagens do 11 de Março. Mas sou republicano, vivo numa República e pouco me interessa a cor das fraldas e o tamanho do cordão umbilical da pequena princesa.
Note-se que acharia de igual modo estranho que as televisões passassem ao lado do acontecimento. De resto, o ponto de algum interesse que vejo nesta história é a possibilidade de haver uma mudança na lei espanhola que deverá permitir à Infanta ser Rainha (pasme-se, estamos no século XXI e ainda não é possível a uma mulher ser monarca de Espanha). Apenas acho que, mais uma vez, exageraram na dose.
As venturas e desventuras da realeza europeia cabem, a meu ver, nas páginas da Holla, da Caras ou da Vip... no máximo, na primeira página do "24 Horas".
É que corremos o risco de, um dia destes, vermos noticiários com peças sobre "a primeira Barbie ou o primeiro estojo de maquilhagem da pequena Infanta". Estarão mesmo os portugueses interessados nisso? Se você, que lê estas linhas está, então anime-se. O casal real espanhol quer ter mais 3 ou 4 filhos. Está com muita sorte.

11 comentários:

Rui Damas disse...

Caros maigos cósmicos, é com grande satisfação que vos apresento o novo colaborador do Observador Cósmico, Manuel Frenandes Silva.

Trata-se de um notável jornalista da RTP, possuidor de uma sagacidade singular, cujo verbo eloquente e incisivo será um magnânimo contributo para a nossa causa, a causa das palavras.

Sê Bem-Vindo Manel!

Rui Damas disse...

Caro Manel,

As tuas palavras são um manifesto, um manifesto contra o consumismo-social em que as sociedades ocidentais mergulharam. A divisão da sociedade por castas é uma doença crónica que nenhuma revolução conseguiu afastar e que os "mass media" tendem a dilatar e enfatizar.

A monarquia é um regime paleolítico que premeia o holofrasismo da classe dominante. Por outro lado, a influência da casa de Bourbon em Portugal começa a ser preocupante...

Obrigado pelo teu magnífico texto!

Abraço

Renato Ribeiro disse...

Antes de mais, Bem-Vindo Manel!´

É com o maior prazer que recebo mais um observador que, a ver pelo 1º texto vai certamente trazer ainda mais eloquencia e qualidade ao nosso blog.

Sobre o texto, não posso concordar mais!!!

Meus amigos, como é possivel que no séc XXI, o povo, mas principalmente os media ainda se deixem iludir e fascinar por questões tão ridiculas como esta?!
Como é possivel que os media nos continuem a intoxicar com histórias da Bela Adormecida e da Princesa que perdeu o Sapatinho?! POR FAVOR...
Com tanta coisa para discutir, ensinar, investigar e informar, estamos a "levar" com Reis, Rainhas, Sapos, Feiticeiras e afins? Eu digo: BASTA!!!
Sangue azul?! ahahah...deixem-me rir, como dizia a velha cantiga! mas eles não são humanos como qualquer um de voçes e eu?!

Abram os olhos subditos de "sua" majestade!

Reis só no Póker...ai sim, dá muito jeito!

Miguel V. Carvalho disse...

Bem-vindo Manuel!!!

É de facto triste que se perca tanto tempo com questões fúteis como esta, especialmente o Canal 1 que é pago por todos nós.

Pessoalmente, nem o nome da menina sei, não dei qualquer espécie de atenção a essa notícia.

Dois factos à parte:

- o grande mérito do capitalismo foi contribuir para a eliminação das castas e do sangue azul com base nos genes;

- no entanto, actualmente e analisando a situação europeia, os países monárquicos foram os menos atingidos pela crise económica que assolou a Europa.

Rui Damas disse...

Miguel,

gostava de saber como é que o capitalismo contribuiiu para a eliminação de castas?!
Acho que tu e eu não devemos habitar no mesmo planeta....

Quanto à crise e à sua relação com a monarquia como tentas inferir, recordo-te a situação caótica,que se vive na Bélgica que é, como sabes, governada por um qq idiota que presta vassalagem a outro idiota com uma coroa na cabeça. Na Bélgica não existe défice, mas existe a mais elevada taxa de desemprego da Europa...

Miguel V. Carvalho disse...

O nascimento de uma classe artesã e mais tarde da burguesia comerciante permitiu que, pessoas vindas do povo, tivessem condições de vida dignas para a época e capacidade para adquirir terras (terras pertencentes a nobres, que as herdaram ou lhes foram oferecidas pela monarquia).

A economia de mercado (ou capitalismo), apesar de imperfeita (e por isso ser regulamentada pelo Estado, apesar deste muitas das vezes contribuir negativamente), é a mais justa e mais livre.

Rui Damas disse...

Mas o capitalismo, Miguel, substituiu as castas aristocratas pela casta do dinheiro, baseada na exploração do homem pelo homem e essas novas elites pretendem ter o status honorífico da antiga aristocracia.
Não mudou nada! E em Portugal se reparares os grandes grupos economicos, com raras excepções, pertencem a pessoas com titulos nobiliarquicos registados...

O Chefe disse...

Este Blog spot anda com problemas ... desaparecem as críticas ... Tinha eu tentado expor aqui o seguinte ... é muito bonito criticar o nascimento do bébé ... muito binto que até dá enjoos ... relamente dedicar um telejornal a isso é demais ... dedicar os 3 canais é demais ainda ... agora dedica-lo num blog acho porreiro ... principalmente quando se critica e todos aplaudem. Mas o que simplesmente se está a fazer é o mesmo que os telejornais, expor para quem nao quer ver e no fim toda a gente vê. Até porque este post é dos que tem mais críticas ... surpreendente digo eu.

Espero que agora fique a crítica

Bjxs

"Fernando Pessoa" disse...

Welcome Cósmico Manuel FSilva

Infelizmente a Comunicação Social deixa muito a desejar, desde as referidas prioridades concedidas às notícias até ao sensacionalismo da informação, para não falar na independência (isso é outra guerra).

Acho que já referi isto aqui no Blog, mas é urgente uma “reforma” da mentalidade na Comunicação Social…..mas primeiro nós (leitores, ouvintes e espectadores) temos de ser mais exigentes

Lou Andreas-Salomé disse...

Embora anti –paparazzi, estou completamente desacordo com as vossas opiniões, à excepção dos factos que o Miguel expôs: os países europeus monárquicos são de facto os que apresentam uma economia mais estável (a Bélgica não é o único a sofrer com o desemprego) e as taxas mais altas de desenvolvimento! Contra factos, não há argumentos.
Neste caso, considero de primordial importância a atenção que se deu ao nascimento da Infanta D. Leonor, porque veio dar ênfase e levantar à tal questão de IO, que eu já apregoei neste blog e que aparentemente já deveria estar resolvida, mas que, na realidade, envolve uma série de injustiças e desigualdades a eliminar urgentemente. É mesmo inadmissível o ainda direito de sucessão ao trono adquirido apenas pelos herdeiros do sexo masculino em várias cortes europeias ou mundiais. (Veja-se a desunião, quezilas e descontentamento que o nascimento da princesa Aiko, filha do príncipe herdeiro Naruhito e da princesa Masako, originou na casa imperial japonesa).
Se vocês consideram o caso espanhol uma mera história cor-de-rosa é-me indiferente, mas eu fiquei aliviada com este nascimento e na lição e mudanças que poderá implicar para a vida de todas as mulheres.
Para além disso, pelo menos é uma notícia feliz, já basta de desgraças e de aberturas jornalísticas com as seguintes deixas: “Portugal é o pior país de Europa em matéria de… ou Portugal lidera o ranking das piores taxas de … ou Portugal apresenta o pior nível de… ou seja: os Portugueses/as são uns/umas tristes!

Rui Damas disse...

Cara LOU,

Discordo em absoluto contigo.

Não é relevante o facto de as primogénitas não poderem reinar... É um puro "fait-diver"...
O que importa nesta questão é discutir, como é possível que alguém, tão somente, em virtude do nascimento possa assumir o cargo de chefe de estado?!?

E mais: como é possível que os demais cidadãos desse estado aceitem isso e se resignem à condição de súbditos de Sua magestade?!?