quinta-feira, setembro 08, 2005

A minha Utopia

Visto algumas afirmações minhas terem suscitado dúvidas ou confusões, sobre o seu teor ideológico ou sobre a sua "raison raisonnace" de prossecução, aqui vai a explicação.

Sou adepto do velho ideário revolucionário que tem como axiomas únicos e cumulativos a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. A sua conjugação é imperativa e não admite restrições. Se a liberdade fosse restringida viveriamos sob o signo da ursupação; Se a igualdade for apenas formal e não material, encontraremos uma sociedade bem parecida com a nossa onde o fosso entre ricos e pobres é assustador; Se a fraternidade for substitúida pela solidariedade, como acontece, faz com que vivamos numa sociedade hipócrita em que ajudar o outro é um imperativo de cordialidade, de bom senso, ou de vangloria pública e nunca um imperativo categórico moral independente de recompensa, que tem em vista o amor entre os Homens.

Tendo em conta que o conceito de Estado desapareceu, como costatou Fukuyama, e que a ordem global impera, não faz sentido vermos as coisas do ponto de vista nacional, pois este é irrelevante e tenho, mesmo, dúvidas sobre a sua existência. Os problemas terão, então, de ser entendidos à escala mundial.

O maior problema que encontramos nos dias de hoje, é a "decaláge" entre os países desenvolvido e os restantes. Apesar de todos os problemas que o primeiro mundo atravessa, temos um nível de vida excelente. Demasiadamente supérfluo, mas ainda assim excelente.

Por muito altruistas que possamos ser, é da condição humana, sermos incapazes de destruir o nosso "modus vivendis" para o substituir por um, em que o nível de vida material seja pior, mas em que exista uma simetria entre as populações do globo. Por isso, o ónus, está no lado das pessoas que vivem nos países subdesenvolvidos e, as quais, representam 80% da populção do planeta. O ónus revolucionário está no lado dos negros, dos asiáticos, dos sul-americanos e dos àrabes.

Existem recursos suficientes no planeta para que todos possamos viver bem. Esse tem de ser o primeiro objectivo de uma nova ordem global e só pode ser conseguido pela via revolucionária, pela revolta daqueles que nada têm perante aqueles que têm quase tudo.

O segundo objectivo é que possamos viver todos em Liberdade, igualdade e fraternidade. Como escrevi no meu primeiro livro "Quinto-império, o primado do Homem" ( Edições Antígona, 1997), esse ideal só pode ser conseguido pondo a ciência ao serviço do Homem. É necessário desenvolver a ciência tendo em conta que o Homem é um ser para o ócio, para o prazer e para a metafísica, substituindo a força motriz humana por autómatos que produzam o mais possível.

O terceiro objectivo tem que passar pela uniformização de um sistema político à escala mundial. A Democracia é o mais justo dos sistemas políticos mas, é um sistema que só releva quando os cidadãos são letrados e esclarecidos e, quando possa ser usada de forma directa. Pelo que na primeira fase, teríamos de viver sobre uma ditadura dos fracos e oprimidos e com todos os inconvenientes que isso acarreta... No entanto, em poucas décadas, poderíamos, com toda a população mundial esclarecida e bem informada, transitar para uma democracia, sem partidos nem lobbies, mas em que a participação seria directa. Defendo para isso, a existência de um comité central global com funções executivas, cujos membros seriam eleitos directamente por tele-voto e cujas decisões seriam promulgadas pelos cidadãos através do mesmo tele-voto.

O quarto objectivo é o estabelecimento do Amor entre os Homens e da Felicidade, mas esse já depende do campo metafísico e está sujeito à mudança de comportamentos milenares e da própria condição humana. Contudo, continuo acreditando no mito do "bom Selvagem" de Rousseau e acho que isso não será assim tão difícil...

Esta é a minha visão e a minha ideologia, pode ser uma utopia, mas fico sempre com vertigens quando penso que a utopia actual chama-se neo-liberalismo, dando prevalência ao "self-made men", sempre à custa de outrém e em que o objectivo é maximizar o lucro.

A "gründ-norm" actual, é pura e simplesmente, termos dinheiro para alimentarmos a nossa insaciàvel gula materia,l e esse não é, definitivamente, o caminho certo.

6 comentários:

Miguel V. Carvalho disse...

Quanto aos valores da liberdade e da fraternidade, concordo absolutamente. Quanto à obrigatoriedade da universalidade de uma ideologia ou de um sistema também estou absolutamente de acordo (aliás, defendo um único país mundial e democrático chamado Nações Unidas).

Discordo absolutamente do teu conceito de igualdade material, pois o que eu defendo é igualdade de oportunidades. O melhor deve ser mais recompensado que o pior....
Discordo absolutamente na forma que defendes para atingir os teus objectivos. Transmite claramente a ideia que o PIB mundial é estático, que é impossível criar mais riqueza, e daí a necessidade de fazer uma distribuição através do Estado. O que é imperioso é acabar com os condicionalismos que impedem os países subdesenvolvidos de se desenvolverem. A riqueza mundial não é estática e a economia não é um jogo de soma nula, quanto muito poderá ser a Balança de Transacções Correntes dos países.

Mais, a maior parte da Ásia e da América Latina está imensuravelmente melhor hoje do que estava à 10,20 ou 30 anos... Basta ler os dados.

Agora, um liberal total como eu, que defendo um Estado mínimo, jamais poderá subscrever uma utopia como a tua...

Quanto ao homem ser feito para o ócio e para a metafísica, estás a negar por completo a natureza humana e a própria "Teoria da Evolução da Espécie" e a defender a Criaccionista. Na TEE está demonstrado que os nossos ancestrais sempre trabalharam, de uma forma ou de outra... E que, se houve um desenvolvimento no campo estético (provavelmente devido ao tamanho do cérebro) este se deve a um conjunto de evoluções no corpo humano (o dedo polegar é de extrema importância).

Rui Damas disse...

caro Miguel, em primeiro lugar obrigado pela tua excelente crítica.
Do ponto de vista da economia de mercado, o que dizes está certíssimo, mas eu falava numa economia planificada e muito restritiva. A economia, tem de perder o dinamismo que hoje ostenta. A economia tem de deixar de ser a ciência que gere a produção de riqueza, mas antes tem de se limitar à gestão dos bens e dos recursos escassos.Esse é o grande desafio! Numa sociedade global em que não exista moeda e cujo crescimento económico dependa somente de factores exógenos tais como a vontade e a necessidade e que seja liminarmente direccionado para o crescimento do Homem, o PIB será estático e até poderá regredir, tendo em conta que determinados bens supérfluos deixaram de ser produzidos.
O teu comentário sobre a "teoria da evolução das espécies" foi muito pertinente. O ócio e a metafísica também são uma forma de laboro, porque o sonho e o pensamento são os verdadeiros catalizadores de uma sociedade. Obviamente que haverá sempre aqueles que pensam e aqueles que executam, mas com uma diferença substancial em relação aos dias de hoje, fazem-no por gosto e não por necessidade.

Lou Andreas-Salomé disse...
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Lou Andreas-Salomé disse...

Caro Ega, (ou deverei dizer caro discípulo de Agostinho da Silva, cavaleiro do Quinto Império ;)?) o teu post foi brilhante! Absurdo, enquanto quimérico, mas brilhante na sua essência! Tendo consciência de se tratar do teu Sonho, sem querer desrespeitar as tuas ideias simbólicas e reduzindo-me à minha condição de leiga, passível de me enganar, gostaria, no entanto, de limar duas arestas do teu discurso. Creio que existem certas teorias economias que defendem o facto de metade de população mundial ter obrigatoriamente de sustentar a outra metade, sem que exista possibilidade de equilíbrio entre ambas as partes, tornando-se a “decaláge” imperativa e a vivência de todos os seres humanos acima do limiar da pobreza, insustentável. Mesmo que estas teorias sejam infundadas ou refutadas, num século, esses 20% que vivem bem esgotaram desvairadamente e esgotam diariamente os recursos do nosso planeta, que já não possui, ao contrário do que afirmas, recursos suficientes à nossa disposição, de modo a saciar toda a Humanidade… sendo que a aposta em alternativas científicas e energéticas existentes ou por descortinar, não constituem o milagre da multiplicação em si…
Já agora, onde entra a religião nesse teu mundo? Estará confinada a uma fé na máxima “ Liberdade, Igualdade e Fraternidade”? Mesmo acreditando na conversão a mundo ateu, a Humanidade nunca sobreviveria sem a figura de Deus.
Não obstante, é um mundo bonito, o teu, que, remetendo a minha imaginação para “A Ilha” de Huxley tem, no entanto, muito de sui generis …
E se eu não estivesse de malas feitas para Marte, para apoiar a candidatura de Soares, gostaria de lá habitar:)))!
PS: A civilização grega, que preconizava o ócio, era quase perfeita...

Rui Damas disse...

Cara Lou, obrigado pelos elogios e por este comentário tão pertinente e efusivo.
Em relação à religião, defendo a óbvia liberdade de opção. A religião e a fé fazem parte do mundo onírico e espiritual e como tal não podem sofrer restrições ao nível da liberdade de pensamento e de culto. No entanto, é para mim dado assente, que o culto público colide com o bom gosto e com a liberdade individual de cada um, pelo que o culto de qualquer relligião teria de ser privado. E digo isto porque não há nada que mais me repugne que passar na rua e ver uma procissão, acho isso uma falta de respeito para comigo ou então, quando quero visitar uma igreja, e não me posso maravilhar com a sua imponência, porque lá dentro estão a decorrer cultos satânicos, que são os baptismos e os casamantos.

Em relação à economia e aos recursos, sou a favor de uma gestão rigorosa dos recursos existentes, se investissemos mais em energias renováveis e menos no desenvolvimento de bens de consumo supérfluos, talvez a sustentabilidade do planeta não seria um mito.

PS: Lou, vê se me consegues arranjar um lugar de coxia no foguetão para Marte, que se o Cavaco ganhar, também partirei!

Lou Andreas-Salomé disse...

lololol!Combinado! Mas se eu te convidar para o meu culto satânico, terás de fazer o frete ;P...